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Tem quem ache que nas universidades nada se produz de bom. É pura ignorância. Há também quem considere que tudo que vem das universidades é chato. Puro ressentimento. Ou preguiça intelectual. Pensar pode doer. É a pessoa que fala em "academicismo". Pior ainda são os que discursam cheios de soberba sobre teoria e prática. Um dos problemas das universidades é produzir, muitas vezes, um saber à frente do exigido para a reprodução dos preconceitos e interesses praticados cotidianamente. Cássio Silva Moreira defendeu uma tese de doutorado, em Economia, na Ufrgs, "O Projeto de Nação de João Goulart: o Plano Trienal e as Reformas de Base (1961-1964)", que mostra o quanto se ganharia lendo trabalhos acadêmicos.
Jango queria bancar várias reformas estruturais. Cássio Moreira explica: "A reforma universitária era outra das reformas que necessitava de modificação nos dispositivos constitucionais. A intenção declarada pelo governo era disciplinar a educação nacional e ampliar as garantias da liberdade do docente. Conforme o IBGE, quando Goulart assumiu a Presidência, em setembro de 1961, o Brasil possuía uma população em torno de 70 milhões de habitantes. Entre a faixa de 15 a 69 anos, havia aproximadamente 40% de analfabetos. Em relação aos estudantes, perto de 6 milhões (8,5%) estavam matriculados na rede de ensino primário, cerca de 900 mil (1,2%) estavam no ensino médio e apenas 93 mil (0,13%), no ensino superior. Em relação a cursos de pós-graduação, o número era mais módico, cerca de 2 mil alunos (0,003%)". Neste momento, só cabe uma exclamação: uau!
O Brasil que os militares queriam salvar das garras dos esquerdistas perigosos e insanos tinha 93 mil estudantes universitários entre 70 milhões de habitantes e apenas 2 mil alunos de pós-graduação. De fato, as reformas de base de João Goulart eram assustadoras e, mais do que isso, desestabilizadoras. Se os militares não dessem o golpe redentor, poderia acontecer uma revolução educacional no Brasil, o que seria, certamente, desastroso com a duplicação, a triplicação ou, quem sabe, muito mais, do número de estudantes universitários. O que seria do Brasil se a reforma universitária de Jango levasse 1 milhão de jovens aos bancos do ensino superior? Sim, a Nação corria um sério risco. Era preciso tomar providências para frear essas reformas arbitrárias formuladas por mentes maquiavélicas e antipatrióticas determinadas a liquidar o salutar elitismo brasileiro.
Os militares que tomaram o poder tinham a sua própria reforma educacional, uma reforma muito mais higiênica. Criaram disciplinas inesquecíveis como Moral e Cívica e Estudos dos Problemas Brasileiros, que ajudaram a produzir cidadãos agradavelmente descerebrados. Por outro lado, disseminaram a ideia de que Jango era um presidente fraco, um homem sem personalidade, capaz de se deixar influenciar por gente mal-intencionada. Por exemplo, más influências como Darci Ribeiro, um dos mentores da reforma universitária que pretendia irresponsavelmente encher as universidades de estudantes.
Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br
Cassio Moreira
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