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Carta de Lisboa
Reconhecendo que é urgente a tarefa de libertação
do nosso povo, nós, brasileiros que optamos por
uma solução trabalhista, nos encontramos
em Lisboa. E se o fizemos fora do País, é
porque o exílio arbitrário e desumano
impediu este Encontro no lugar mais adequado: a Pátria
brasileira. A tarefa de organizar com nosso povo um
Partido verdadeiramente nacional, popular e democrático
é cada vez mais premente. Não desconhecemos
as permanentes tentativas das forças autoritárias
de esmagar os movimentos dos trabalhadores. Mas o repositório
de coragem e dignidade dos trabalhadores faz com que
eles não se dobrem nem se iludam. E com eles
estamos nós, Trabalhistas.
Não podemos deixar de salientar, também,
que aqueles que defendem uma posição paciência,
assim como a inoportunidade da luta contra a opressão,
não são, exatamente os que se encontram
em condições de sofrimento e perseguição,
mas ao contrário, navegam nas águas da
abastança e dos privilégios. Invoca-se,
por outro lado, que a restauração da vida
democrática e o ressurgimento de partidos autênticos
dependem do sistema e de suas fórmulas jurídicas
e legais. Consideramos, todavia, um ato de incompetência
política e de deslealdade para com o nosso povo,
aguardar as providências dos juristas do regime,
de cujas fórmulas, somente por ingenuidade ou
má fé, pode se esperar algo de diferente
da vontade de institucionalizar a espoliação
de nossa gente e a manutenção de uma estrutura
política e econômica inaceitável
para o povo brasileiro.
Fato novo mais importante da conjuntura brasileira
não é nem a crise do regime, nem o fracasso
de todos os seus projetos e promessas.
O novo, importante e fundamental, é a emergência
do povo trabalhador na vida política do País.
Não de um povo amedrontado depois de 15 anos
de opressão, mas de um povo que se organiza sob
as mais variadas formas - nos sindicatos, nas associações,
em comunidades, em movimentos e organizações
profissionais - com o mesmo objetivo: o de lutar por
seus direitos, pela democracia. Como parte desta emergência
se deve destacar as conquistas do movimento estudantil,
e a luta agora vitoriosa pela reorganização
da UNE.
A experiência histórica nos ensina, de
um lado, que nenhum partido pode chegar e se manter
no governo sem contar com o povo organizado e, de outro
lado, que as organizações populares não
podem realizar suas aspirações sem partidos
que as transformem em realidade através do poder
do Estado. A falta de apoio popular organizado pode
levar a situações a situações
dramáticas como aquela que conduziu o Presidente
Getúlio Vargas a dar um tiro em seu próprio
peito.
Partidos e povo organizados constituem, por conseguinte,
as duas condições fundamentais para a
construção de uma sociedade democrática.
Analisando a conjuntura brasileira, concluímos
pela necessidade de assumirmos a responsabilidade que
exige o momento histórico e de convocarmos as
forças comprometidas com os interesses dos oprimidos,
dos marginalizados, de todos os trabalhadores brasileiros,
para que nos somemos na tarefa da construção
de um Partido Popular, Nacional e Democrático,
o nosso PTB. Tarefa que não se improvisa, que
não se impõe por decisão de minorias,
mas que nasce do encontro do povo organizado com a iniciativa
dos líderes identificados com a causa popular.
Nós, Trabalhistas, assumimos a responsabilidade
desta convocatória, porque acreditamos que só
através de um amplo debate, com a participação
de todos, poderemos encontrar nosso caminho para a construção
no Brasil de uma sociedade socialista, fraterna e solidária,
em Democracia e em Liberdade.
Nós, Trabalhistas, queremos representar para
o povo brasileiro o espírito da tolerância
e da fraternidade. Nós, Trabalhistas, participamos
ao lado do nosso povo em todas as suas lutas, e porque
o nosso projeto é profundamente democrático,
procuraremos alianças com as outras forças
também democráticas e progressistas do
nosso País. Nós, Trabalhistas, militaremos
ativamente me todas as frentes e, porque o nosso projeto
é pluralista, não pretendemos absorver
ou manipular os sindicatos ou as organizações
populares das mais diversas origens.
Entendemos a necessidade de um intenso debate para
o desenvolvimento constante da Democracia e nós,
Trabalhistas, estaremos sempre empenhados em discutir
com todas as forças populares e democráticas
do nosso País. É por isso que favorecemos
o surgimento de outras organizações, que
auspiciamos o aparecimento de outros partidos e que,
nas nossas lutas, respeitaremos os seus princípios.
A consecução destes objetivos exige,
como requisito prévio e fundamental no campo
do pensamento e da cultura, a conquista da plena liberdade
de criação intelectual, de expressão
e de imprensa. Neste sentido, torna-se imprescindível
a revogação de todas as formas de censura.
O grande desafio com que nós, Trabalhistas,
nos defrontamos hoje é o de nos situarmos no
quadro político brasileiro para exercer o papel
renovador que desempenhávamos antes de 1964 e
em razão do qual fomos proscritos.
Com efeito, apesar de termos tido numerosas deficiências,
não por ela que caímos. Fomos derrubados,
isto sim, em virtude das bandeiras que levantamos. A
velha classe dominante brasileira e os agentes internos
do imperialismo, não nos podendo vencer pelo
voto nos excluíram pelo golpe.
A verdade que afinal se fez evidente (depois copiosamente
comprovada) é que o governo do Presidente João
Goulart foi derrubado por uma ação conjugada.
Os latifundiários temiam a lei da Reforma Agrária
que, com a nossa presença no Congresso Nacional,
seria inevitável. Por sua vez, o governo norte-americano
de então planejou e coordenou o golpe para evitar
a aplicação da lei de Remessa de Lucros
que poria termo à espoliação do
Brasil pelas empresas multinacionais.
O desafio com que nos defrontamos é, por conseguinte,
o de retomar as bandeiras daquela tentativa generosa
de empreender legalmente as reformas institucionais
indispensáveis para liberar as energias do povo
brasileiro. Especialmente uma reforma agrária
que dê a terra a quem nela trabalha, em milhões
de glebas de vinte a cem hectares, em lugar de entregá-las
em províncias de meio, de um e até de
mais de dois milhões de hectares na forma de
super-latifundiários, subsidiados com recursos
públicos. E termos também de levantar
a bandeira da luta pela regulamentação
do capital estrangeiro, para pôr fim à
apropriação das riquezas nacionais e ao
domínio das próprias empresas brasileiras
pelas organizações internacionais.
O regime militar que sucedeu ao governo constitucional,
sendo regressivo no plano histórico, se fez repressivo
no plano político e, em conseqüência,
totalmente infecundo e despótico. Apesar de contar
com todo o poderio do arbítrio, legislando a
nível constitucional da forma mais discriminatória,
só fez acumular mais riqueza nas mãos
dos mais ricos e mais no colo dos mais privilegiados.
O bolo que tão reiteradamente prometeram repartir
quando crescesse, agora o sabemos, é o de uma
dívida externa gigantesca que montava a 3 bilhões
de dólares em 1964 e hoje supera os 50 bilhões.
Nessas circunstâncias, o nosso primeiro compromisso
é o de reconduzir o Brasil a uma institucionalidade
democrática em que todo o poder emane do povo
e seja por ele periodicamente controlado através
de eleições livres e diretas, nas quais
todos os brasileiros de maior idade sejam eleitores
e elegíveis. O Brasil democrático pelo
qual lutamos será uma República realmente
federativa, com progressiva descentralização
do poder, onde o voto terá que ser proporcional,
para que - havendo a mais ampla representação
das diversas forças políticas - não
seja escamoteada a vontade popular. A República
a que aspiramos há de estar defendida contra
todo intento de golpismo e contra toda e qualquer manifestação
de despotismo e repressão, para assegurar permanentemente
ao povo brasileiro o direito elementar de viver sem
medo e sem fome.
Nosso segundo compromisso é o de levantar as
bandeiras do Trabalhismo para reimplantar a liberdade
sindical e o direito de greve, como os instrumentos
fundamentais de luta de todos os que dependem do salário
para viver. É dever também dos Trabalhistas
lutar contra a brutal concentração da
renda que responde inclusive pelo achatamento dos salários,
fixados em índices falsificados e sempre inferiores
ao aumento das taxas reais do custo de vida.
Será também preocupação
primordial dos Trabalhistas a elaboração
de uma nova legislação do trabalho que
recupere as conquistas subtraídas pela ditadura
e que permita a ampliação constante dos
direitos dos trabalhadores. Nosso terceiro compromisso
é de reverter as diretrizes da política
econômica, com o objetivo de afirmar, em lugar
do primado do lucro, a prioridade de dar satisfação
às necessidades vitais do povo, especialmente
as de alimentação, saúde, moradia,
vestuário e educação. O resultado
da orientação economicista até
agora vigente é este contraste espantoso entre
a super prosperidade das empresas - especialmente as
estrangeiras - e o empobrecimento do povo brasileiro.
Nos últimos anos, trabalhadores do campo se viram
convertidos majoritariamente em bóias-frias que
perambulam sem trabalho permanente, e trabalhadores
nas cidades se viram transformados em massas marginalizadas
que se concentram na porta das fábricas. Estas
imensas multidões vivem em condições
tão extremas de carência elementar que
já têm sua sobrevivência biológica
e sua saúde mental afetadas.
Por tudo isso é que devemos definir prontamente
as forças de ação política
e os procedimentos legais mais adequados para mobilizar
o nosso povo para uma campanha de salvação
nacional. Através dela, nós, Trabalhistas,
buscaremos dar solução, dentro do prazo
o mais breve possível, ao problema máximo
de nossa Pátria, que é a marginalidade.
Com efeito, um dos aspectos mais desumanos da política
econômica da ditadura é a conversão
da força de trabalho nacional num exército
de excedentes. Nem a singela aspiração
de um emprego permanente em que se ganha um salário-mínimo
para a sobrevivência, o sistema pode assegurar.
O drama social pungente dessas massas marginalizadas,
que humilha e envergonha a Nação Brasileira,
afeta, especialmente a quatro categorias de pessoas
cujos problemas estão a exigir a atenção
prioritária dos trabalhadores.
Primeiro, o de salvar os milhões de crianças
abandonadas e famintas, que estão sendo condenadas
à delinqüência; bem como o meio milhão
de jovens que, anualmente, alcançam os dezoito
anos de idade analfabetos e descrentes de sua Pátria.
Segundo, o de buscar as formas mais eficaz de fazer
justiça aos negros e aos índios que, além
da exploração geral de classe, sofrem
uma discriminação racial e étnica,
tanto mais injusta e dolorosa, porque sabemos que foi
com suas energias e com seus corpos que se construiu
a nacionalidade brasileira. Terceiro, o de dar a mais
séria atenção às reivindicações
da mulher brasileira, que jamais viu reconhecidos e
equiparados seus direitos de pessoa humana, de cidadã
e de trabalhadora; e que, além de ser vítima
da exploração representada pela dupla
jornada de trabalho, se vê submetida a toda sorte
de vexames sempre que procura fazer valer seus direitos.
Quarto, o de fazer com que todos os brasileiros assumamos
a causa do povo trabalhador do norte e do nordeste,
tanto por uma economia local obsoleta, como por um colonialismo
interno exercido de forma escorchante pelas unidades
mais ricas da federação e pelo próprio
Governo Federal, que propicia sua exploração
entregando às grandes empresas, na forma de subsídios
para aumentar seus lucros, os recursos que deviam ser
destinados àquelas populações extremamente
carentes.
No plano da ação política, duas
tarefas se impõem com a maior urgência
a todos os Trabalhistas.
Em primeiro lugar, a luta por uma Anistia ampla, geral
e irrestrita de todos os patriotas brasileiros perseguidos
por sua resistência à ditadura. Este é
o requisito indispensável à reunificação
da comunidade nacional para a retomada do esforço
conjunto para fazer do Brasil uma Pátria solidária
de cidadãos livres, emancipados do medo, da ignorância
e da penúria.
Em segundo lugar , a luta pelo retorno à normalidade
democrática que só se efetivará
no Brasil quando após a reimplantação
da liberdade de organização partidária
o nosso povo eleger a Assembléia Nacional Constituinte.
Reconhecemos as dificuldades para que nosso povo tenha
uma participação efetiva. E por participação
efetiva entendemos crítica via e permanente e
não atuação eleitoral episódica
ou simplesmente a adesão a propostas impostas
verticalmente.
A proposta do novo Partido Trabalhista a ser discutida
pelo nosso povo e formulada em território brasileiro,
despida de soluções importadas, tem que
levar em conta a necessidade de criar um partido que
expresse os anseios e seja dirigido pelas classes populares.
A nova proposta começa com a repulsa àqueles
que vêem no ressurgimento do PTB uma sigla de
fácil curso eleitoral. A nossa proposta tem um
sentido claro de opção pelos oprimidos
e marginalizados.
Neste particular e dentro de um horizonte que não
é absolutamente cristão, mas marcado por
um capitalismo impiedoso, impõe-se a nossa defesa
constante dos pobres contra o ricos, ao lado dos oprimidos
contra os poderosos.
Na luta a favor da justiça contra a opressão
se insere a questão da atual ideologia de segurança
nacional, que tem servido para justificar as violações
dos direitos humanos. Tal doutrina gerou no País
a mais completa insegurança para os cidadãos
comuns, ensejando a expansão da brutalidade,
da denúncia e da tortura, tanto contra os presos
políticos, como contra as lideranças sindicais
e sobretudo, com incidência cruel sobre as camadas
mais pobres da população.
Porque damos importância central ao nosso povo
como sujeito e criador do seu próprio futuro,
sublinhamos o caráter coletivo, comunitário
e não individualista da visão Trabalhista.
A partir deste momento devemos concentrar todos os
nossos esforços na preparação e
organização do Congresso Nacional da organização
do novo PTB, a realizar-se no Rio de Janeiro, no dia
19 de abril de 1980.
No Congresso, recolheremos, através de nossas
bases, as grandes aspirações e definições
da vontade popular.
Com o Congresso, continuaremos firmemente, sob a inspiração
da Carta Testamento do Presidente Getúlio Vargas,
a caminhada junto ao povo que nos levará à
emancipação da Pátria.
Lisboa, 17 de junho de 1979
A.Mª. Doutel de Andrade, Ajadil de Lemos, Alberto
Martins da Silva, Aldo Pinto, Alex Souza, Alfredo Hélio
Sirkis, Almir Dutton Ferreira, Álvaro Petraco
da Cunha, Anatailde de Paula Crespo, Anselmo Francisco
Amaral, Antônia Gonçalves da Silva Oliveira,
Antônio Alves de Moraes, Antônio Sérgio
Monteiro, Artur José Poerner, Augusto Calmon
Nogueira da Gama, Benedito Cerqueira, Calino Pacaheco,
Carlos Augusto da Gama, Carlos Cunha Contursi, Carlos
Fayal, Carlos Franco, Carlos Minc Baumfeld, César
Behs, Chizuo Osava, Cibilis da Rocha Viana, Cláudio
Augusto de Alencar Cunha, Clóvis Brigagão,
Danilo Groff, Darcy Ribeiro, Derli M. Carvalho, Domingos
Fernandes, Edmauro Gopfert, Eduardo de Azevedo Costa,
Erasmo Chiapeta, Eric Nepobuceno, Eunice de Souza, Eva
Ban, Fernando Perrone, Flávio Tavares, Francisca
Brizola Rotta, Francisco Barreira, Francisco Dal Prá,
Francisco Goulart Lopes de Almeida, Francisco Julião,
Genival Tourinho, Georges Michel Sobrinho, Geraldo Lopes
Burmeister, Getúlio Pereira Dias, Gil Cuneggato
Marques, Haroldo Sanford Barros, Hélio Ricardo
Carneiro da Fontoura, Herbert de Souza, Hildérico
Pereira de Oliveira, Índio Vargas, Irany Campos,
Irineu Garcia, Isaac Ajnhorn, J. G. de Araújo
Jorge, Jackson Kepler Lago, João Vicente Goulart,
José Wanderley, José Carlos de Oliveira,
José Macedo de Alencar, José Maria Rabelo,
José Maurício, Jorge Roberto da Silveira,
José Carlos Rolo Venâncio, José
Gomes Talarico, José Guimarães Neiva Moreira,
Josino de Quadros Assis, Landa Maria Lopes de Almeida
Ajnhorn, Leonel Brizola, Lúcio Rigo Marques,
Luiz Alberto Moniz Bandeira, Luiz Carlos Soares Severo,
Lygia de Azeredo Costa, Lysâneas Dias Maciel,
Magnus Francisco Antunes Guimarães, Manoel Sarmento
Barata, Marcelo Carvalho, Márcio W. de Almeida,
Marco Antônio de Andrade Leão, Maria do
Carmo Brito, Maria Margarida Parente Galamba de Oliveira,
Maria Zélia Brizeno Costa Lima, Martha Maria
Maurício Vianna, Matheus Schmidt, Maurílio
Ferreira Lima, Maurício Vieira de Paiva, Miguel
Bodea, Mila Cauduro, Moema São Thiago, Murilo
Rocha Mendes, Neusa Goulart Brizola, Ney Ortiz Borges,
Nielsen de Paula Pures, Norma Marzola, Olga Martins,
Orlando Maretti, Osvaldo Lima Filho, Oswaldo Pimentel,
Otávio Goulart Brizola, Paulo César Timm,
Paulo Medeiros, Pedro Celso Ulhoa Cavalcanti Neto, Pedro
Dietrich Júnior, Pedro Veronese, Raimundo Arroio,
Ronaldo Dutra Machado, Saulo Saija, Sebastião
Nery, Sereno Chaise, Tania Lyra, Tertuliano de Passos,
Theotônio dos Santos, Trajano Ribeiro, Tuffik
Mattar, Vânia Bambirra, Vera Mathias, Wilson Vargas
da Silveira, Zoé Rodrigues Dias.
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